EU TENHO UM SONHO!
Luiz Viegas
Talvez nem mesmo Martin Luther King
tenha atentado para a profundidade da frase com a qual
iniciou um de seus discursos - "Eu tenho um
sonho...".
Corretamente, ele exortava o povo a sonhar, consciente que é a
visualização criativa que faz girar a humanidade, e porque
não dizer, origina a própria vida.
Qualquer que seja a atividade, o sonho sempre precede o primeiro passo.
Antes de pôr o pé na estrada, o caminhante sabe exatamente
o que procura. Muitas vezes perderá o rumo, caminhando por estradas
tortuosas e perigosas. Mas a bússola a indicar o norte, será sempre
a imagem preconcebida de um sonho em que um dia acreditou, e que o motivou
a dar o primeiro passo rumo ao desconhecido.
Quando os executivos e suas equipes
se juntam para planejar, nada mais estão fazendo do que "pré-vendo" possíveis
acontecimentos, para definir estratégias alternativas que se adaptem
a cada uma das suas visões. O que é prever senão
sonhar? Mas você acha que o termo "sonho" não
combina com negócios? Causa-lhe mal estar ser taxado de sonhador?
Então vamos dar outro nome ao sonho. Vamos chamá-lo de "Visão
Criativa". Sente-se melhor agora? O que mudou? Apenas o rótulo.
O princípio ativo continua sendo exatamente o mesmo.
Amigo empresário venha comigo dar um passeio através do
tempo. Vá rebobinando mentalmente o filme da sua vida, até chegar
ao dia em que decidiu abrir sua empresa. Não tenha receio de reencontrar
velhos demônios ou relembrar fatos indesejáveis. Tudo isso
já está exorcizado. Pegue um pedaço de papel e
escreva o motivo.
Pois é, um dia você sonhou em: ficar rico, não mais
passar necessidades, não ter patrão, colocar em prática
o espírito empreendedor, ser empresário, seguir o exemplo
do pai, deixar algo para os filhos, fazer para si o que durante muitos
anos fez para os outros, etc. etc.
Segundo a minha experiência, esses são alguns dos sonhos
- está bem, motivos - que o levaram a abrir a sua pequena empresa.
Decisão tomada surge a grande pergunta - "O que vou fazer
agora".
Aí você teve que optar por um dos seguintes caminhos: fazer
o que já fazia para outros ou fazer o que nunca tinha feito,
certo?
A partir desse momento, quando você arregaçou as mangas
para concretizar o sonho, começaram a surgir os problemas, os
quais apelidei de "inimigos". É exatamente sobre alguns
deles que eu quero conversar hoje com você.
Ao longo de anos convivendo com pequenos e médios empresários,
consegui listar mais de 40 diferentes tipos de inimigos que, com maior
ou menor incidência, têm sido os causadores da maior parte
dos fracassos e do alto índice de mortalidade das empresas.
Vamos ver alguns?
- Falta de estrutura de vendas - A
grande dificuldade inicial do pequeno empresário é a
falta de estrutura, não tendo muitas vezes para
quem delegar ou, o que é pior, não querendo
delegar por se considerar rodeado de profissionais incompetentes.
Ele tem tanta vontade de vencer e conhece tanto o que antes
fazia, que se considera o único capaz de tocar a
empresa. Ele é a própria empresa. Daí tudo
vive em função dele - produz, compra, controla,
fatura, administra, vende... Será que vende? O meu
grande desafio como consultor é tirar o empresário
detrás das máquinas e faze-lo vender, ou
pelo menos ir para o campo visitar clientes. A maior parte
alega que não sabe vender, e pior que isso, não
gosta! Se não pode montar uma estrutura de vendas
por absoluta falta de recursos, e também não
sai para vender, para quem vai produzir? De onde virão
os recursos para manter a empresa viva? A tendência é cada
um valorizar e fazer aquilo que sabe ou que gosta. Daí amigo
empresário tome cuidado. Nada acontece numa empresa
até que uma venda seja feita. Se você tiver
que optar entre ficar na empresa ou sair para o campo,
opte pela segunda hipótese. Tenha a certeza que
tudo o que tiver de acontecer de bom para a sua empresa,
vai acontecer do lado de fora. Se você for visitar
o cliente, vai, no mínimo, ficar sabendo o que está acontecendo
no mercado, e ainda corre o risco de conseguir um pedido.
Agora se ficar dentro da empresa...
- Não saber por onde começar -
Essa é outra dificuldade que muitas vezes paralisa
o novo empresário. Abriu a empresa, investiu uma
grana preta em máquinas, é bem verdade que
são usadas, mas produzem! E agora, começar
por onde? Vender para quem, uma vez que permanece ilustre
desconhecido? Tem dinheiro para investir num tipo de mídia
mais eficaz? A resposta é óbvia - não
tem! Então o jeito é apelar para os amigos.
Invista num cartão de visitas da melhor aparência
que puder. Não se esqueça de dar uma melhorada
no visual. Agora você é um empresário
e precisa apresenta-ser como tal. As pessoas gostam de
fazer negócios com quem se parece com elas. É uma
questão de energia, de empatia. Portanto estufe
o peito e nada de cabeça baixa. Quem você pode
considerar como amigos? Todos aqueles que compravam os
produtos que você produzia, só que do seu
antigo patrão. Você não tem coragem? É sacanagem?
Desculpe - antiético! Então fique aí sentado,
esperando a coragem chegar. E quando afinal se decidir,
talvez encontre na sala de espera do seu amigo, bem na
sua frente, aquele seu subordinado, aquelezinho pelo qual
você não dava nada, e que além de ter
tido a mesma idéia que você, teve também
mais coragem e chegou na frente. E depois dos amigos? Não
se esqueça de pedir a cada amigo que lhe dê pelo
menos três indicações. Dez visitas
transformar-se-ão em 30...trinta em noventa, e assim
o bolo vai crescendo. Quer o nome dessa técnica
de Venda? O amigo do meu amigo é meu amigo também...
Ah! Quase me esqueci de avisar. O empresário, seu
amigo, por certo já tem os seus fornecedores e não
poderá correr o risco de trocar só porque
você apareceu. Então esteja preparado para
descascar um abacaxi, tipo um serviço que ninguém
tem interesse em fazer. Se você conseguir, estará dando
uma excelente justificativa para o amigo colocar a sua
empresa na relação de fornecedores. Descobrir
um nicho de mercado e fazer o que ninguém faz
ou não quer fazer é sinal de sucesso à vista.
- Falta de recursos financeiros -
Qual o pequeno ou médio empresário que inicia
a vida com dinheiro sobrando? A maior parte começa é mesmo
com a cara e coragem. Talvez no sonho que deu origem à sua
empresa, você visualizasse uma empresa moderna, cheia
de profissionais capazes, escritórios espaçosos
e sofisticados e equipamentos ultramodernos. Cuidado! Isso
pode transforma-se numa terrível armadilha. Não
queira dar o passo maior do que as pernas. A experiência
me ensinou que no começo, ao invés de investir
em equipamentos sofisticados que vão custar um dinheiro
que você não tem, é melhor rodear-se
de profissionais competentes, que acreditem no seu sonho
e estejam dispostos a crescer com você. Com toda
a certeza a sua empresa não vai poder competir com
concorrentes que já estejam em outro nível
tecnológico. Você precisará agir com
mais inteligência e estar pronto para tirar leite
de pedra, fazendo milagre com os equipamentos que possui.
Lute contra a tentação de financiar equipamentos
mais sofisticados. Talvez os juros absorvam todo o suado
lucro que a sua empresa possa vir a ter. Se assim for,
você vai viver do quê? Procure primeiramente
pisar firme no chão. Dê um tempo para sentir
o mercado e a solidez do negócio em que se meteu.
Sinta se é exatamente isso que você quere
se é competente para faze-lo. A partir daí sim,
comece a planejar uma reserva de recursos para a troca
de equipamentos. Mas evite, a todo o custo, colocar o carro
na frente dos bois. Encerrar um negócio faz parte
do jogo, e só acontece a quem teve coragem para
abri-lo. O pior é encerrar a empresa e ainda levar
para casa e para a família uma tremenda dívida.
- Medo de crescer - Costumo dizer
que existem dois tipos de pessoas que não têm
medo de arriscar - quem tem muito e quem não tem
nada. Quem tem muito pode separar uma verba e arriscar
num determinado negócio. Como dinheiro atrai dinheiro,
o novo negócio acaba dando certo. Se não
der, serão apenas alguns Reais a menos na conta
bancária, que por certo serão recuperados
em novas tentativas. Quem não tem nada pode arriscar
tudo! O pior que poderá acontecer é continuar
sem nada, de preferência num lugar bem longe e desconhecido!
Agora, quem conseguiu amealhar alguma coisa através
de muito suor e trabalho, esse sim, tem medo de investir.
Se você decidiu dar forma ao seu sonho e assumir
o papel de empresário, tenha consciência que
um dia precisará arriscar, ou da mesma forma estará pondo
em jogo o que conseguiu. Darwin não podia prever,
mas a sua lei também está presente e se aplica
ao mundo dos negócios, onde os fortes sobreviverão
e prevalecerão sobre os mais fracos. Tenho encontrado
empresários que se atemorizam com o que conseguiram,
vendo seus sonhos ganharem um vulto que jamais poderiam
imaginar. Portam-se tal qual o náufrago extenuado,
que nadou exatamente até o meio do rio, e está em
dúvida se é melhor voltar ou continuar a
travessia. Qualquer que seja a decisão tomada, o
risco de morrer afogado é exatamente igual.
- Desencontros com família ou sócios -
Aprendi ao longo do tempo, que o consultor que tiver especialização
na área do comportamento, acabará prestando
grandes serviços aos pequenos e médios empresários.
Embora a minha área de atuação seja
o marketing, tenho sido por diversas vezes chamado a atuar
como conselheiro sentimental. Na maior parte das vezes
o problema é um membro da família ou um sócio.
Qual o empresário que não é tentado
a levar alguém da família para ajudar na
empresa? Aquele cunhado que há três anos não
consegue emprego e está vivendo de bicos, ou até mesmo
a esposa, que cansou de ficar em casa e acha que será mais útil
se ficar na empresa, nem que seja fazendo tricô,
com a alegação de que são os olhos
do dono que engordam o gado! Com o passar do tempo o tiro
acaba saindo pela culatra. A esposa, que não sabia
fazer nada, continua não sabendo. Mais ainda, agora
se acha no direito de interferir no trabalho da secretária,
controlar as entradas e saídas não só do
caixa, mas principalmente do marido, que alega precisar
almoçar toda a Quinta-feira com a mesma cliente,
sob o pretexto de fechar as portas para a concorrência?
Isso sem falar daquele seu amigo de infância, que
você decidiu colocar como sócio, uma vez que
estava precisando de uma grana para comprar as primeiras
máquinas, e que agora, como o mercado está recessivo,
decidiu dar o fora e quer receber a grana que ele pôs,
grana essa que você não tem para devolver.
Cuidado! Pense duas vezes antes de colocar alguém
da família ou admitir um sócio. Devo concordar
que existe muita esposa que é de fato o braço
direito, quando não passa a ser a cabeça
pensante da empresa, e sócios que atuam de forma
profissional e harmônica. Mas fica aqui o alerta,
para que você nunca diga que ninguém o avisou.
Como disse, são
mais de quarenta "inimigos", alguns deles aparentemente
inofensivos, mas capazes de causar estragos iguais ao de
uma bomba atômica. Longe de escrever um tratado,
quero apenas deixar algumas reflexões para você,
que acabou de ter um sonho - o de ser um empresário
bem sucedido.
Medo é um sentimento que você definitivamente deve apagar
da sua mente. Transforme a adrenalina que você vai desperdiçar
com ele em persistência, conhecimento, espírito de luta,
coragem e muito trabalho.
A humanidade precisa de pessoas corajosas e empreendedoras, capazes de
criar empresas, gerar empregos e promover o crescimento econômico
dos países. Juntas, as pequenas e médias empresas geram
muito mais empregos do que todas as demais. A falência delas seria
um verdadeiro caos social.
É preciso que você, empresário, continue alimentando e moldando
o seu sonho.
Você é a única pessoa capaz de torna-lo realidade.
Boa sorte!
Luiz Viegas
Consultor de Marketing - E-mail: viegas@workshop.com.br
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