Equilíbrio. Talvez esta seja a palavra mais adequada
para nortear a vida de qualquer pessoa, muito especialmente
a dos empreendedores.
Quando cuidamos de nossos negócios
(ou do negócio dos outros, com atitude empreendedora)
costumamos assumir uma postura extremada, engajando-nos
de corpo e alma, labutando 14 horas diárias, negligenciando
nossa saúde, nossa família, nossa vida social
e cultural.
Os dias tornam-se curtos, insuficientes para
a realização das atividades propostas. O almoço
torna-se supérfluo. Dorme-se pensando nas duplicatas
vencidas e a vencer, nos clientes que deixaram de ser atendidos,
nos atrasos na linha de produção. Dificilmente
lembramo-nos dos aspectos positivos, do que aconteceu de
bom naquele dia. Os problemas são recorrentemente
mais pujantes.
Os finais de semana são comemorados
no escritório ou em casa, porém regados a
“trabalho atrasado”. Sentimo-nos quase reféns
de uma espiral interminável, mas sempre com a impressão
de que ela está por findar-se. “Em 3 meses
poderei tirar férias”. “Estou concluindo
esta etapa de crescimento da empresa em uns 6 meses e então
poderei trabalhar menos”. Você já disse
frases similares a alguém (ou a si mesmo) recentemente?
Enquanto isso, a vida vai passando. Seus
filhos crescem e você deixa de participar de suas
apresentações na escola, no clube, da perda
de seu primeiro dente. Seus relacionamentos pessoais desgastam-se,
namoros perdem o encanto e casamentos são rompidos.
A dieta saudável e as atividades físicas ficam
relegadas a um segundo ou terceiro plano.
Sempre que escrevo algo o faço na
esperança de que o leitor tire proveito de uma única
frase que seja. Se isto ocorrer, terei cumprido meu objetivo.
De todos os contatos que tive com profissionais
variados, impressionou-me observar como a maioria dá-se
conta de aspectos como os mencionados anteriormente apenas
após 45, 50 anos ou mais. Nesta fase da vida, realizaram-se
profissionalmente, mas uma lacuna em suas vidas pessoais
deixou flancos que infelizmente não podem mais ser
preenchidos pois ficaram no passado. Sob este prisma, são
ricos materialmente, mas estão pobres.
Família e Amigos
A coisa mais importante da vida é
saber o que é importante. E apesar de o trabalho
ser muito relevante, as coisas mais fundamentais são
a família e os amigos.
O dinheiro pode trazer conforto, mas não
constrói uma boa família. A melhor herança
que podemos dar a nossos filhos e companheiros são
alguns minutos diários de nosso tempo. É impressionante
como não conseguimos nos aperceber disso. Eles precisam
de nossa presença mais do que de nossos presentes.
Diz um provérbio latino “Bendito aquele que
consegue dar a seus filhos asas e raízes”.
Nossa postura profissional pode estimulá-los a criar
asas, vislumbrando sonhos e um futuro brilhante. Mas apenas
a convivência será capaz de criar as raízes
dos valores e da cultura que embasarão adequadamente
estas visões.
Por isso, não leve os negócios
para casa. Aprenda a separar sua vida profissional de todas
as suas outras vidas. Mantenha-se num equilíbrio
saudável. Acenda e apague as luzes. Pessoas e lâmpadas
têm uma durabilidade maior com esta prática.
E tire férias com regularidade, sem confundir um
final de semana emendado com férias de verdade. Leve
junto sua família e, o mais importante, leve junto
você.
Quanto aos amigos, não se consegue
construir um relacionamento por telefone ou e-mail. Sempre
existirá a necessidade de se fazer as coisas “cara
a cara” pois as pessoas acreditam em quem elas vêem
regularmente. Por isso, mantenha contato com seus amigos.
Não deixe que as relações se percam.
Como disse Dave King, um bom amigo é como um bom
cachorro – com ambos é preciso dar uma volta
e exercitar-se regularmente. E citando Fred Kushner, “Eu
deveria ter visitado mais meus amigos e lhes contado como
me sentia em vez de só encontrá-los em enterros”.
Saúde e Carreira
Saúde é o preceito básico
para todas as suas demais atividades. Se você não
tomar conta de seu corpo, onde vai viver? A saúde
é como a liberdade: seu verdadeiro valor só
é dado quando as perdemos. Você pode optar
por passar metade de sua vida arruinando sua saúde
desde que esteja disposto a transcorrer a outra metade tentando
restabelecê-la. Por isso, cuide-se. Durma o número
de horas que seu organismo exige para recuperar-se, respeitando
seu biorritmo. Pratique esportes com regularidade. Pode
ser uma caminhada diária, um futebol com os amigos
duas vezes por semana, uma visita ao clube com seus filhos
e amigos no final de semana. E sorria. Cultive o bom humor
mesmo diante das adversidades. Sua visão, outrora
turva, tornar-se-á espantosamente lúcida.
Existe um velho ditado entre os pilotos: “O principal
é fazer o avião voar”.E para tanto,
não basta conhecer de navegação: é
necessário ter um bom equipamento.
Já sua carreira não é
construída apenas pelo seu dia-a-dia no trabalho.
É, na verdade, fora dele que você se projeta.
Invista em sua formação. Faça cursos
de aprimoramento em outras áreas nas quais você
não cultiva grande habilidade. Leia cadernos de economia,
política e negócios, mas não se esqueça
de ler gibis também. Parafraseando Augusto, “Apressa-te
devagar”: se o deadline chegou, mude-o, pois a maioria
dos prazos são artificiais e flexíveis.
Trabalhe com paixão e com entusiasmo.
Com amor e com empolgação. Mas lembre-se:
o trabalho irá esperar enquanto você mostra
às crianças o arco-íris, mas o arco-íris
não espera enquanto você está trabalhando.
O Resto da Coisa
A verdade está no caminho do meio,
disse Sócrates. Por isso o equilíbrio tem
o poder de trazer a felicidade. Fumar dois maços
de cigarros diariamente com certeza custar-lhe-á
um enfisema, mas um bom charuto com os amigos será
muito prazeroso. Beber em demasia poderá causar-lhe
desde um acidente de trânsito até uma cirrose,
mas uma taça de vinho no jantar contribuirá
positivamente com sua saúde. Todos os excessos, até
mesmo o amor obsessivo, o sexo compulsivo, acabam sendo
tratados, em última instância, como assunto
de cunho médico...
Os dois únicos fatos verdadeiros na vida são
que você nasce um dia e vai morrer em algum outro
dia. O que acontece entre essas duas datas depende de seu
modo de vida. Por isso, tente apreciar as coisas simples.
Aprenda a dizer NÃO. Lembre-se de que pequenas coisas
só afetam mentes pequenas e que somente quem pensa
grande também erra e acerta grande. Reconheça
sempre o que já conseguiu, deixando de mirar no que
você não tem: a inveja destrói a felicidade
e a gratidão a assegura. Aceite o perfeccionismo
não como uma virtude, mas como um excesso, pois mesmo
as pastagens mais verdes têm partes queimadas, ou
seja, nada é perfeito. Você não será
nada se quiser ser tudo.
Faça uma lista “secreta”
das coisas que você quer fazer. Guarde-a em sua carteira
e leia-a de tempos em tempos. Não se esqueça
dos pequenos prazeres – um pôr-do-sol, uma caminhada
na praia, uma cerveja gelada, um beijo atrás da orelha.
E viaje leve através da vida, e não
carregado como uma tartaruga. Siga as batidas do seu coração.
Tom Coelho
PS: O texto utiliza frases de Benjamin Disraeli,
Fernando Parrado, Jesse Jackson, Nita Allen, Otto Milo, Peggy
Ayala, Richard Edler, Seth Dingley, Solomom Schechter e Tom
Johnson.